Montijo na Restauração de 1640 por Francisco Correia (historiador)

franciscocorreia

Nota: Francisco Correia é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, com pós-graduação em Ciências Documentais (arquivo) pela mesma instituição. Tem uma vasta obra publicada. Foi responsável da área dos manuscritos da Biblioteca Nacional de Portugal, docente do Instituto Politécnico de Santarém, diretor do Arquivo Distrital de Santarém. Atualmente, é coordenador do Arquivo Municipal do Montijo.

Conta o Conde da Ericeira, D. Luís de Meneses, que o Duque de Bragança, na sua viagem para Lisboa, a fim de ser solenemente aclamado Rei de Portugal, com o nome de D. João IV, pernoitou em Aldeia Galega do Ribatejo, hoje a cidade do Montijo, de 5 para 6 de Dezembro de 1640: “A quarta feyra chegou El Rey a Aldea Galega, onde achou que o esperavam muytos fidalgos e outras pessoas ecclesiasticas e seculares: recebeu a todos tam benignamente, que na prymeira acção conseguiu entregaremlhe nos corações as liberdades e as fazendas. Na manhãa de quinta feyra se embarcou e às nove horas chegou à Ponte da Casa da India…” (D. Luís de Meneses, Conde de Ericeira – História de Portugal Restaurado, tomo I, Livro 2º, Lisboa, 1679, p.109).

O dia é o mesmo do relato seguinte, 6 de Dezembro, também conhecido por dia de S. Nicolau, que, nesse ano de 1640, calhou a uma quinta-feira. Mas neste outro relato, o monarca vai bem mais apressado, e na sua passagem por Aldeia Galega, não espera pelo seu transporte real, e utiliza a falua de Aldeia Galega, que assegura a travessia, para mais rapidamente chegar a Lisboa.

É o que nos revela uma outra descrição desta travessia do ainda Duque de Bragança, futuro rei D. João IV, entre Aldeia Galega do Ribatejo e Lisboa, numa compilação feita pelo prior de S. Domingos de Guimarães, Fr. António Mesquita: “Dia de São Nicolao passou el Rey que Deus guarde em huma falua de Aldea Galega pera Lisboa, das ordinárias da passagem, não aguardando pelas que o hyão buscar e tam aforrado à ligeira e apreçado vinha, que duas noites foi sua cama hum coxim em maleta, porque todo o cuidado pos na consideração de quam necessária era sua presença na cidade, vestido de pano cor de rato e huma banda no chapeo da mesma cor por sintilho…” (Fr. António de Mesquita – Cartas várias de reis, príncipes, imperadores… dos quais se coligem vários sucessos… colhidos por industria do padre Fr. António de Mesquita, prior de S. Domingos de Guimarães, Manuscrito, Biblioteca Pública Municipal do Porto, Ms. 851, f. 187r).

Outra crónica coeva, assinada por D. Gregório de Almeida, pseudónimo de João de Vasconcelos, dá-nos conta da mesma viagem entre Vila Viçosa e Lisboa: “…. Dom Joam Quarto sahio de Villa Viçosa sem guarda e sem armas das muitas que tinha no Castelo daquela villa e se poz a segunda feira, à tarde, três de Dezembro a caminho de Lisboa […] Aos seis do mesmo mês se embarcou em Aldea Galega acompanhado do Marquez de Ferreira, Conde do Vimioso, Pero de Mendonça e Jorge de Mello…” (João de Vasconcelos, 1592-1661 – Restauração de Portugal Prodigiosa, Lisboa, António Alvarez, impressor d’ el Rei, 1643, p. 178.

Dessa viagem entre Vila Viçosa, sede da Casa Bragança e Lisboa, ocorrida entre 3 de Dezembro, uma 2ª feira, e 6 de Dezembro, uma 5ª feira, nos dão conta estes 3 relatos da época.

Em todos eles, a mesma informação de que o futuro monarca embarcou, com destino a Lisboa, em Aldeia Galega, na manhã do dia 6 de Dezembro de 1640. A sua pernoita está relatada na primeira destas fontes narrativas e, também, a mais utilizada. Mas, em nenhuma delas, se faz menção a um Conselho Régio reunido nesta localidade.

A Chegada de D. João IV é o título para o fresco pintado por Jaime Martins Barata, em 1959, na sala de audiências do Palácio da Justiça do Montijo, representando o Duque de Bragança, em Aldeia Galega, antes do embarque para Lisboa, a fim de ser coroado Rei de Portugal.

E tudo tinha começado no dia 1 de Dezembro de 1640, com um grupo de fidalgos conjurados tomando de assalto o paço real, matando Miguel de Vasconcelos, secretário de Estado e valido do rei D. Filipe IV de Espanha, III de Portugal, e proclamando D. João, duque de Bragança o futuro rei de Portugal.

Com a aclamação de D. João IV, como rei de Portugal, em 15 de Dezembro de 1640, e o seu reconhecimento nas Cortes de 1641, ficava completa a etapa inicial do processo de restauração da independência de Portugal, governado que foi, entre 1580 e 1640, pela dinastia dos Habsburgo de Espanha. E iniciava-se, igualmente, o período de guerra mais longo da nossa História, entre 1640 e 1668, data em que se estabeleceu a paz definitiva com Espanha.

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