António Costa deixou “a casa arrumada” encher-se para a despedida

Fonte: Público

Local: Salão Nobre dos Paços do Concelho. Hora prevista: meio dia. António Costa anuncia a sua despedida, ao fim de sete anos e a meio do terceiro mandato, como autarca da capital. O facto não é novo, uma vez que o anúncio fora feito, na véspera, durante uma reunião da Assembleia Municipal. Seria, ainda assim, o último dia. E uma ocasião para esclarecer algumas questões com o líder do PS. A mais óbvia: Porquê agora?

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Nos planos de quem pensou no acontecimento não estava, contudo, reservado qualquer espaço para o esclarecimento desta e de outras perguntas. E isso começou a ser notório ainda antes de se abrirem as portas do Salão Nobre, ao cimo da escadaria monumental dos Paços do Concelho, em cuja varanda foi proclamada a República.

Faltavam ainda alguns minutos para o meio dia quando começaram a chegar os convidados. Muitos. Associações recreativas, como a Renovar a Mouraria, personalidades da cultura, como o encenador João Mota, oficiais das forças de segurança, fardados, presidentes de juntas de freguesia, como Margarida Martins ou Pedro Delgado Alves. O enorme salão encheu-se num ápice.

Desta vez, a renúncia ao mandato do autarca não se quis solene, antes festiva. “A casa está arrumada, a câmara a funcionar, com um quadro financeiro sustentado numa gestão de rigor e numa ambição realista. É tempo de encerrar o ciclo e abrir um novo, no município e no país. Sei que deixo o município em boas mãos, numa transição preparada e planeada que concretizamos hoje quando estamos a seis meses das eleições legislativas”, disse António Costa, numa breve declaração de três minutos, proferida num púlpito de acrílico.

Costa só entrou na sala quando esta já estava à pinha. Oficialmente, estava desde as 10h30 a presidir à sua última reunião com a vereação. Mas desde o meio dia um dos seus vereadores, José Sá Fernandes, já circulava pelo Salão Nobre, cumprimentando os convidados. O autarca demissionário chegou às 12h33, acompanhado pelo seu sucessor, Fernando Medina – que tomará posse na próxima segunda-feira, bem como um novo vice-presidente, e um novo elemento da vereação, que substituirá Costa.

A cerimónia demorou escassos 20 minutos, com muitos aplausos e poucas perguntas. Os jornalistas foram, de certa forma, convidados para difundir uma imagem: a de uma saudação a Costa. Um estrado central para a recolha de imagens pelas câmaras de TV. Um palanque, cercado por um cordão, para os repórteres fotográficos. Quatro lugares sentados, na direita baixa da cena, para a imprensa e para as rádios.

A todos foi mostrada uma cena: um retrato do carinho que a multidão que encheu o Salão Nobre dispensa ao autarca que agora será a tempo inteiro o líder do PS. Ambas as cerimónias fariam, porventura, sentido: a despedida emotiva e a conferência de imprensa. A mistura não resultou…Em três minutos de declaração, Costa agradeceu aos lisboetas, aos funcionários e dirigentes da autarquia, aos presidentes de junta, aos vereadores, falou da “maioria plural” que construiu em Lisboa, com os independentes do movimento liderado por Helena Roseta. Agora é o momento de “servir os portugueses”, disse, depois de ter ajudado a capital a recuperar a sua “autoestima”: ”Sinto em consciência que o meu dever é concentrar-me agora – como fiz há oito anos – com o mesmo espírito de serviço, energia e determinação, para servir Portugal e os portugueses.”

Quando terminou de falar, ladeado pelos seus vereadores, de um lado, e pelos presidentes de junta de freguesia e a presidente da Assembleia Municipal, Helena Roseta, do outro, Costa dedicou-se a cumprimentar, uma a uma, as personalidades ali presentes.

Só depois respondeu a breves perguntas, das televisões, e sempre em movimento, pronto para sorrir e deixar de responder. Na resposta a uma das perguntas confirmou que vai passar a receber um salário enquanto secretário-geral do PS: “Vivo do meu trabalho não tenho outra fonte de rendimento.” Eram 12h53 quando saiu, parando uns segundos para ser fotografado pelos telemóveis de alguns dos convidados.

À porta, do lado de fora, estavam alguns vereadores da oposição. Costa cumprimentou-os, sempre a sorrir, e trocou algumas palavras com António Prôa, do PSD, que considerou que esta despedida já vinha tarde: “O doutor António Costa, desde que passou a estar a meio tempo na Câmara Municipal de Lisboa, embora não o fizesse formalmente, devia ter abandonado a Câmara de Lisboa para dar lugar a um presidente que se dedicasse em exclusivo à cidade.” O mesmo partido, antes, pela voz do líder parlamentar, Luís Montenegro, criticara Costa por “mais uma vez” não cumprir um mandato até ao fim.

A mesma crítica foi repetida por Telmo Correia, do CDS: “O doutor António Costa abandona o mandato de presidente de câmara, que pediu aos lisboetas e que disse que cumpriria, a menos de meio do mandato, cumprido um ano e pouco de mandato.” Para o vice do CDS, ser presidente da câmara “é talvez na democracia portuguesa um dos [mandatos] mais personalizados que existe”. Por isso, o CDS faz pontaria à “legitimidade política” de Fernando Medina, o até agora vice-presidente da autarquia, com 42 anos, que substitui Costa à frente do município. Para o CDS, Medina é “um vereador que não se candidatou” a presidente da câmara, nem “pediu votos para essa função”. Mas nada disto leva o CDS a ponderar um pedido de eleições antecipadas, explica Telmo Correia, à Lusa: “O CDS neste momento está a confrontar o doutor António Costa com a sua própria coerência. O CDS, por princípio, é pela estabilidade eleitoral e pela estabilidade dos mandatos.”

A outra força da oposição na autarquia, o PCP, também avaliou negativamente o mandato de Costa na capital: “Foi um período durante o qual não se apresentaram soluções para os principais problemas da cidade e em que muitas vezes, demasiadas vezes, interesses particulares prevaleceram sobre a defesa do interesse público”, acusou o vereador e eurodeputado João Ferreira.

Essa não é, naturalmente, a opinião maioritária entre as centenas de pessoas que encheram o Salão Nobre para se despedir de Costa. Houve despedidas emocionadas e cumprimentos efusivos, neste dia 1 de Abril. O líder do PS demora-se nos abraços e fala com simpatia a quem o aborda. A partir de agora, o seu nome pode ser gravado numa das paredes do lado esquerdo de quem entra na sede do município, reservado aos presidentes do executivo camarário, abaixo de Jorge Sampaio, que também deixou a presidência, mas para se candidatar a Belém, e de Pedro Santana Lopes, que deixou Lisboa para ser primeiro-ministro após a renúncia de Durão Barroso.

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