Opinião | Cidades Inteligentes: Cibernética e Biopolítica por Rui Matoso

Não subscrevo na totalidade a opinião. Não deixa de ser um exercício muito bom e uma diferente abordagem das smart city.

Rui Matoso é dirigente concelhio do Bloco de Esquerda de Torres Vedras, professor universitário e gestor cultural.

ruimatosoDesde a 2ª Guerra Mundial que as investigações na automatização da vida e na digitalização das comunicações, na altura em prol de melhorias nas máquinas de guerra do exército norte-americano, se vêm consolidando em torno daquilo que Norbert Wiener designou como Cibernética na sua famosa obra de 1948, Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine.

A regulação e controlo dos fluxos de informação e dos mecanismos de feedback aplicados pela Cibernética à investigação dos mecanismos de regulação homeostática nos seres humanos é um dos eixos principais da cibernetização do humano e dos seus ambientes. Outro eixo fundamental desta perspetiva ciborgue está patente na opção de Wiener pela digitalização da informação através do uso preferencial das “máquinas numéricas” (máquinas digitais baseadas na aritmética binária e álgebra booleana) em vez das “máquinas analógicas”, bem como no aperfeiçoamento tecnológico das capacidades de programação, memorização e automatização de processos – cujo incremento nas velocidades de processamento levariam à desejável substituição do gesto humano por processos de automação. Este eixo da Cibernética, apoiado nas investigações de John von Neumann e de Alan Turing, foi o que permitiu a Norbert Wiener afirmar que o sistema nervoso humano e animal operavam como sistemas de computação e controlo, pois a rede neuronal (neurónios-sinapses) funcionaria de forma análoga ao do cálculo binário.

Por outro lado, o entendimento de que o mecanismo de reflexo condicionado (Pavlov), ou de affective tone como Wiener prefere designar, é um mecanismo biológico de feedback relacionado com os sistemas de aprendizagem e de associação de ideias permitiu a Wiener especular acerca das capacidades de aprendizagem dos computadores, levando-o a afirmar que a nova revolução industrial consiste em substituir o juízo e o discernimento humano pelo das máquinas, neste sentido o computador surge já não como fonte de força e poder, mas como fonte de controlo e de comunicação.

A fusão cibernética entre o cérebro (e sistema nervoso central) e a emergência fenomenológica da mente (funções mentais) – referida em diversos momentos por Wiener – representa desde então uma nova linha de atuação do behavorismo-tecnológico-instrumental ( tecnobehavorismo1), o qual tem vindo a implementar-se como meio ambiente imersivo e holístico (totalitário ?), isto é, que procura agir em todo o ciclo do processo de feedback, automatizando a administração de inputs lógicos e afetivos (racionalidade e emoção) na expectativa de recolher outputs calculáveis e preemptivos (através de algoritmos), e assim exercer uma forma de controlo difuso e manter a “homeostase” nas redes telemáticas.

O projeto cibernético vem sendo, desde a segunda metade do séc. XX, alimentado pelas industrias dos media e das tecnologias de rede, mas também pela infraestrutura militar norte-americana, correspondendo ao que Julian Assange designa como “militarização do ciberespaço” (Julian Assange, In CypherPunks).

Aquilo que designamos aqui como ambiente cibernético holístico ou totalitário pode ser interpretado como a extensão do ciberespaço à totalidade da vida (biofísica e psíquica) na qual se integram as biotecnologias, as biopolíticas e as múltiplas aplicações da cibernética (organizacional, financeira, cognitiva, estética, etc…) e corresponde à implementação de programas concretos ao longo da história e em geografias distintas.

Cybersin, Smart Cities e Biopolítica

O projeto Cybersyn -sinergia cibernética- desenvolvido e dirigido pelo engenheiro Stafford Beer, entre 1971 e 1973 no Chile durante o governo de Salvador Allende, consistiu na criação de um ambiente interativo para administrar e otimizar o suporte a decisões importantes a serem tomadas no âmbito da política económica. A utilização de dispositivos de captura de informações: salas de videoconferência, sistemas de redes colaborativas e protocolos de interação entre empresas, governo e outras organizações, eram aplicados em iniciativas emergentes como o e-governo e a cibernética organizacional.

O modelo ciber-urbanístico das Cidades Inteligentes (Smart Cities), assente sobre a ideia de pretender controlar as cidades através de centros de operações cibernéticos – desenhados e produzidos pela IBM (unidade Smarter Cities) – torna evidente a viragem computacional (computational turn) nos modelos de governação com a qual já interagimos constantemente. Rem Koolhaas, na conferência Digital Minds for a New Europe, organizada pela Comissão Europeia, pergunta verdadeiramente se as cidades inteligentes estão condenadas à estupidez? Enquanto afirma que os cidadãos que a cidade inteligente diz servir, são tratados como crianças. Uma das preocupações referidas por Koolhaas, prende-se com a forma apolítica do modelo de Smart City, segundo o qual os tradicionais valores europeus de liberdade, igualdade e fraternidade, foram substituídos no século XXI por conforto, segurança e sustentabilidade.

Do lado da esfera pessoal e no que respeita às formas da individualidade, a questão que se coloca desde os primeiros momentos da Cibernética é, por um lado, o da emergência da inteligência artificial (incorporação maquínica da mente) e o da produção indutiva de subjetividades dóceis e submissas aos dispositivos tecnobiopolíticos, cuja psicopolítica digital e Big Data se apoderam das emoções para influenciar ações a nível pré-reflexivo, pois, é através das emoções que se chega às profundezas do self, e assim a emoção representa um meio eficiente para estabelecer o controlo psicopolítico do individuo2.

Este novo regime de governamentabilidade global e de anulação das subjetividades, capaz de instaurar doravante uma realidade virtual através da codificação digital do mundo e do tratamento algorítmico da informação acumulada (governação algoritmíca), pretende reduzir a incerteza e o risco nos comportamentos humanos e nas escolhas de diretrizes de gestão da vida em geral, ou seja, instaurar uma biopolítica global e assim dispor integralmente dos corpos humanos e dos seus ambientes.

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