Opinião | Pensar Cidade por José Caria

josecariaAs dinâmicas objetivas e subjetivas subjacentes ao crescimento de cidades e, em particular, ao seu desenvolvimento no tipo metropolitano, conjugam diferentes dimensões complementares.

Se a motivação primordial que leva ao assentamento e à afirmação urbana pode ser diferenciada, desde as cidades que nasceram à volta de universidades ou bairros ferroviários, até às cidades que se desenvolveram em torno de portos marítimos e/ou fluviais, ou, ainda, de espaços industriais, o seu desenvolvimento processa-se, posteriormente, em ciclos de desenvolvimento alternados, nos quais se amadurecem as outras vertentes da vivência urbana.

A vida social complexificou-se, o que não significa que os seres humanos passassem a ter, forçosamente, uma vida mais complicada e difícil desde que residem em cidades. Se assim fosse integralmente seria duvidosa a evolução verificada.

Os problemas e conflitos surgem por outras razões, a saber : – a apropriação antissocial de “parcelas do globo terrestre” e, logo no início da história, o controlo dos fluxos de excedentes alimentares, por uma minoria de indivíduos que, em proveito próprio, estabeleceram o rentismo. Já anteriormente haveria, provavelmente, manifestações homólogas em torno de outras questões vitais para as sociedades humanas.

É corrente afirmar-se que “com o crescimento do nu´mero de habitantes e o aumento da riqueza, surgiu na cidade outra espécie de divisão: a divisão entre os ricos e os pobres, que nasceu com a outra grande inovação da vida urbana que foi a instituição da propriedade”.

O problema das “cidades” não está nelas em si mesmas, mas, sim, na apropriação antissocial de partes muito significativas do solo, dos recursos naturais, dos fatores de produção e, até, do trabalho realizado pelos seres humanos.

A cidade e os contornos do respetivo processo de consolidação implica uma abordagem complexa, de âmbito territorial e institucional, combinando transversalmente dimensões materializadas em processos principais de desenvolvimento económico e social ( residencial, empresarial, administrativo, logístico, cultural, conhecimento, criatividade e sustentabilidade) sendo esta a teia de relacionamentos e sinergias de uma “megacidade”, correspondente a um nível tendencialmente ótimo de eficiência e complementaridade, em termos teóricos (económica, empresarial, social, cultural, institucional, tecnológica, entre outros), enquanto fatores de estabilização plena dos pilares de competitividade e coesão essenciais ao crescimento /desenvolvimento e ao progresso das sociedades.

O crescimento urbano constitui uma realidade complexa e diversificada, dependente, em cada momento, do percurso que se percorreu até então, estruturado em torno de avanços e retrocessos, moldado por restrições orçamentais e assente em decisões de agentes que não dispõem de informação perfeita, logo o estádio de consolidação de cada uma destas ”dimensões de cidade” num dado pólo urbano é, inevitavelmente, desequilibrado, e tendendo a moldar uma realidade resultante do seu efeito cumulativo de longo prazo através da afirmação sequencial de determinadas dimensões como resultado da afirmação das anteriores.

A pretensão de alguma vez atingir um equilíbrio entre as diversas “dimensões de cidade” é, não só, irrealista, mas, principalmente, indesejável, porque em cada momento uma cidade enfrenta diferentes oportunidades e desafios que, a serem identificados por todos os agentes envolvidos – famílias, empresas, poderes públicos – poderão indiciar qual é a estratégia a seguir, isto é, quais as escolhas que otimizam os recursos disponíveis na sua articulação com o ambiente económico, social, ambiental e institucional, evitando uma “luta contra a corrente”, respeitando-se as especificidades da realidade urbana observada, valorizando-se a respetiva vocação inata, consolidando o que se tem assumido como seu carácter distintivo e procurando, de forma equilibrada, promover a emergência sustentada e equilibrada de outras dimensões do urbano.

Neste processo de permanente (des)equilíbrio são por vezes englobadas por esta realidade urbana, territórios de cariz rural na sua vizinhança, que são funcionalmente polarizados pela centralidade das cidades de maior dimensão. É o caso típico de realidades metropolitanas definidas a partir de cidades capitais, que agregam, nos seus territórios de influência e polarização, territórios com perfis tipicamente rurais.

É um processo que introduz, simultaneamente, complexidade à organização, gestão e funcionamento da região metropolitana, mas que também lhe introduz diversidade e uma capacidade de articulação proveitosa entre a vivência urbana e a rural e todas as suas cambiantes.

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