Entrevista | Ana Catarina Mendes: “é preciso recuperar a confiança dos portugueses”

Fonte: Diário do Distrito

Vice-presidente da bancada socialista na Assembleia da República e presidente da Federação Distrital de Setúbal, Ana Catarina Mendes é a cabeça de lista pelo PS por Setúbal.

AnaCatarinaMendes

Quais são as perspectivas do Partido Socialista para as eleições legislativas?

A primeira grande perspectiva é ganhar as eleições legislativas no país e no distrito de Setúbal, um dos mais importantes, porque seria o consolidar de uma grande vitória do PS.

Perante os momentos muito difíceis que temos tido, o PS aposta na devolução da confiança e da esperança aos portugueses, confiança que desejamos que seja retribuída no dia 4 de Outubro.

O tecido empresaria, nomeadamente as pequenas e micro empresas, foram bastante prejudicadas pela política de austeridade. O que tem o PS a oferecer às que conseguiram manter-se?

Temos no programa eleitoral programas específicos para as pequenas e médias empresas do país, de forma a promover a sua recuperação uma vez que estas foram alvo de um ataque fiscal muito grande e viram os seus custos de produção aumentar enormemente, Neste momento essas empresas precisam de apoios financeiros que os ajudem a relançar-se na economia portuguesa e para isso contamos com um financiamento específico para pequenas e médias que lhes permitam obter mecanismos financeiros para esse passo.

É evidente que a máquina fiscal tem de ser alterada, o PS tem essa noção, e aponto apenas um exemplo de um dos sectores mais afectados com a imposição fiscal dos últimos anos, o da restauração, sobre o qual o PS já assumiu o compromisso de que voltará a baixar o IVA do sector.

Temos um quadro do nosso cenário macro-económico, onde fazemos as contas com rigor daquilo que devem ser as medidas a adoptar nos próximos tempos, bem como a forma como podemos auxiliar as pequenas e médias empresas. O que posso afirmar é que teremos novidades, que podem ter a ver com incentivos e fundos financeiros ou poderão estar relacionados com a questão fiscal.

«O distrito de Setúbal tem três graves problemas»

Quais os pontos que mais preocupam o PS relativamente ao distrito de Setúbal? 

Neste momento, e olhando para uma radiografia rápida do distrito, encontramos três problemas graves: O desemprego, que afecta cerca de 147 mil pessoas, 19 mil das quais sem qualquer protecção social; em segundo lugar temos o problema gravíssimo com a saúde, que nestes quatro anos foi um dos sectores mais afectados do país, e em que o distrito de Setúbal não foi excepção.

Temos exemplos muito recentes em que as direcções hospitalares apresentaram demissão porque não tinham condições para dar resposta aos seus utentes. E no distrito temos ainda cerca de 200 mil pessoas sem médico de família.

Há um conjunto de iniciativas que é necessário realizar na área da saúde, nomeadamente nas Unidades de Saúde Familiar, que são urgentes para dar resposta aos utentes e para dar melhores condições de acesso à saúde nos Centro de Saúde e nos Hospitais.

Também assumimos nesta legislatura que a construção do hospital no Seixal era uma necessidade para o distrito. Em 2011 estava previsto e projectado este hospital, aprovado pela Administração Central de Saúde, e é uma pena que este Governo tenha desperdiçado a oportunidade de capitalizar fundos europeus para a construção deste hospital, o que é apenas mais um exemplo das falhas no sector da saúde.

O hospital no Seixal funcionaria em ambulatório e iria aliviar o Hospital Garcia de Orta e o Hospital de Setúbal, dando resposta às necessidades da população dos concelhos do Seixal, Sesimbra e Almada.

A terceira questão, que é gritante em todo o país, e em que o distrito não é excepção, tem a ver com a pobreza. Cerca de vinte por cento da população do distrito vive no limite da pobreza, que aumentou significativamente no distrito de Setúbal. Se olharmos para dois números muito concretos, designadamente nos grupos mais vulneráveis, percebemos que um quarto da população idosa perdeu o complemento de solidariedade para idosos e uma parte significativa das pessoas perdeu o Rendimento Social de Inserção.

Poder-se-ia dizer o que é algo de positivo porque significaria que as pessoas estão melhor mas não foi isso que aconteceu.

Tratou-se sim de critérios ideologicamente preconceituosos para excluir estas pessoas do acesso a prestações sociais, daí que o PS tenha como prioridade no seu programa de governação a posição os mínimos sociais a estas pessoas, porque lhes são absolutamente essenciais.

Há ainda uma outra vertente da pobreza que hoje graça no país, e para a qual o PS tem também uma resposta. É a situação dos casais que vivem com salários mínimos nacionais e para quem é necessário que seja criado um complemento salarial de forma a possibilitar-lhes o mínimo de dignidade de sobrevivência na sociedade, uma situação que é particularmente urgente em Setúbal.

Existe ainda uma outra preocupação, porque é preciso não nos esquecermos que no distrito de Setúbal, como em todo o país, a emigração tem sido uma realidade muito dura. Dou apenas um exemplo: só do Politécnico de Setúbal, nestes quatro anos, setenta por cento dos enfermeiros ali licenciados, foram trabalhar para o Reino Unido. Isto é muito significativo da ausência de capacidade de um governo em capitalizar os seus recursos humanos mais qualificados.

Por isso é que peço aos portugueses e aos cidadãos do distrito de Setúbal, que confiem em nós e na possibilidade do PS abraçar o capital humano que pode servir o país. Quero deixar a mensagem que o PS se preocupa com a valorização do capital humano dos que se formam aqui e de quem precisamos no país para o podermos vir a reconstruir. O país precisa destas pessoas que têm saído de cá e por isso é essencial encontrar espaço para que voltem e se sintam aqui realizados.

«É preciso potenciar os apoios comunitários»

E em termos de indústria, como poderá vir a ser a região de Setúbal, no ponto de vista do PS?

Entendemos que Setúbal foi uma região, entre 2005 e 2011m em que se tornou um pólo de desenvolvimento para o país. Se olharmos para o que foi uma aposta dessa legislatura, temos por exemplo o porto de Sines que se tornou na porta atlântica da Europa, no que foi uma visão estratégica do desenvolvimento do país e para a qual o distrito de Setúbal contribuiu de forma de forma significativa.

O que aconteceu passados quatro anos é que paralisaram todas as obras no porto de Sines e o que temos hoje é uma extensão do terminal 21, com um mínimo de financiamento privado e nada de financiamento público. Por isso é necessário retomar aquilo que é o verdadeiro investimento público neste distrito, que deve ter em conta o novo Quadro Comunitário de Apoio, que não foi muito aproveitado nesta legislatura, e canalizar também os fundos estruturais para relançar o investimento no distrito de Setúbal.

Há possibilidade de retomar o projecto do Arco Ribeirinho Sul?

Creio que sim. Aliás, o Arco Ribeirinho Sul o que sofreu nos últims anos foi uma mudança de nome e a não injecção de verbas. Nada foi feito na frente ribeirinha, que é uma das maiores riquezas do distrito, que viu todo o investimento parado nos últimos quatro anos, o qual é necessário retomar o mais rapidamente possível.

No entanto, é preciso ter em conta que os constrangimentos económicos a que estamos sujeitos ainda nos limitam, mas é precisa a ambição de olhar para os fundos comunitários e estruturais e potenciá-los aqui também no distrito.

«Em Setúbal temos uma lista totalmente paritária»

Como descreveria a lista do PS para Setúbal? 

Esta é uma lista com uma equipa que reputo de muita qualidade, cuja média de idades está nos 43 anos, o que por si só não é uma mais-valia mas significa que temos pessoas com muita experiência quer ao nível do trabalho no Parlamento, quer ao nível da experiência governativa e também com muita experiência nas suas áreas profissionais.

No meu entender isso enriquece qualquer lista, na qual contamos também com economistas, uma área que tem de ser uma prioridade na próxima legislatura porque é através dela que se realiza a criação de emprego, e através deste se consegue optimizar e reorganizar a economia do país.

Trata-se de uma equipa jovem e que é talvez a única do país que é totalmente paritária, com cinquenta por cento de mulheres e de homens. Não se tratou de uma necessidade de preenchimento de quotas, como definem os nossos estatutos, mas foi antes o reconhecimento da competência de homens e mulheres do distrito de Setúbal que têm capacidade para voltar a dar uma nova centralidade à região de Setúbal, no contexto nacional.

Um dos aspectos com que os partidos políticos têm de lutar é a abstenção. De que forma o PS olha este sector do eleitorado?

Setúbal é um distrito de gente muito esclarecida e muito batalhadora, que não está satisfeita com a actual situação do país e aquilo que peço aos mais descrentes nas instituições é que confiem no PS para que possamos voltar a dar dignidade às instituições e às pessoas que as representam e com isso, conferindo maior riqueza ao nosso distrito, o que significa trabalharmos todos juntos.

As instituições democráticas, nos últimos anos, sofreram fortes abalos e é preciso que os eleitores voltem a acreditar que estas, o parlamento e os governos são formados por pessoas de bem, que têm uma única ambição: trabalhar para e com os portugueses, e essa é a ambição do PS.

Qual é o maior desafio enquanto cabeça de lista e enquanto deputada? 

O maior desafio que temos neste momento é devolver a esperança às pessoas, permitir que os cidadãos acreditem nos seus governos e nos políticos. E que acreditem que esse é o projecto do PS, um projecto de rigor, credibilidade e de confiança nas pessoas e no país.

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