Adaptação climática da habitação – projeto ClimAdaPT.Local

Fonte: Smart Cities

O aquecimento global e as alterações climáticas (AC) têm um impacto direto no conforto térmico das pessoas, pois expõem as habitações a um aumento de temperatura, prevendo-se que as cidades europeias estarão expostas até ao final do séc. XXI a um aumento médio anual da temperatura entre 2°C e 4°C. Este aumento de temperatura, acompanhado de um aumento na ocorrência e intensidade de ondas de calor, tem particular importância na Europa do Sul. As suas consequências diretas fazem-se sentir na saúde das populações, com especial agravamento na população mais envelhecida isolada e/ou com fracos recursos económicos.

ClimAdaPT

Ao nível do conforto térmico na habitação, o impacto das AC é variável em função de um conjunto de fatores que incluem as características dos edifícios (tipo de construção, estado de conservação, exposição solar) e o perfil socioeconómico dos seus ocupantes. Genericamente o aumento da temperatura devido às AC apresenta dois tipos de consequências: um aumento das necessidades de arrefecimento e um decréscimo nas necessidades de aquecimento.

No caso português, a exposição do parque edificado às AC é agravada por vários fatores: 1) 70% dos edifícios são anteriores a 1990, período em que não existia em Portugal regulamentação térmica dos edifícios e 2) fraca intervenção na reabilitação do edificado, representando apenas 6,5% da atividade do setor da construção, muito aquém da média Europeia (37%).

Opções de Adaptação

Num contexto urbano importa salientar soluções como o sombreamento no exterior dos edifícios, ventilação passiva a partir da morfologia de edifícios e ruas, a utilização de pavimentos frios e de telhados verdes, bem como a reabilitação energética de grupos de edifícios. Nas opções não estruturais destacam-se os planos de contingência em situações de onda de calor para intervenção direta junto de pessoas muito vulneráveis. Nas soluções de adaptação ao nível individual da habitação, destaca-se o isolamento térmico dos edifícios (telhados, paredes e janelas), o controlo das infiltrações de ar, a ventilação natural no interior do edifício e as tecnologias de aquecimento e arrefecimento de elevada eficiência.

Avaliação da vulnerabilidade do conforto climático às AC

O CENSE da FCT/UNL desenvolveu uma metodologia de estimativa e mapeamento das vulnerabilidades climáticas para os 29 municípios envolvidos no projeto ClimaAdaPT.Local. Neste contexto, foram desenvolvidos três índices quantitativos numa escala crescente de 1 a 20:

Índice Impacto Potencial – mede o nível de conforto climático nas habitações, tendo por base a diferença entre a energia que seria necessário consumir para manter uma temperatura interior de 20°C no Inverno e 25°C no Verão e a que efetivamente se consome de acordo com dados da Direção Geral de Energia e Geologia. Foram consideradas diversas variáveis do edificado (ex. graus dias de aquecimento e arrefecimento, tipo de edifícios, idade, materiais de construção, posse de equipamentos de climatização).

Índice de Capacidade Adaptativa – mede a capacidade de implementação de medidas de adaptação considerando variáveis socioeconómicas (idade, rendimento médio, taxa de desemprego, grau de escolaridade e posse/aluguer das habitações).

Índice de vulnerabilidade – expressa o resultado final combinado do índice de Impacto Potencial e do índice de Capacidade Adaptativa.

Esta abordagem teve como objetivo dotar os municípios de um conjunto de ferramentas operacionais, que lhes permitam:

Avaliar o impacto potencial das AC no conforto térmico nas habitações, obter o diagnóstico atual da capacidade adaptativa e apurar a vulnerabilidade atual e futura do seu parque edificado (Excel BldAdaPT);

Mapear um conjunto de indicadores georreferenciados relativos à capacidade adaptativa e à vulnerabilidade climática à escala da freguesia, passiveis de serem integrados nos Sistemas de Informação Geográfica dos Municípios (SIG BldAdaPT).

Da aplicação da metodologia descrita aos 29 municípios do projeto ClimAdaPT.Local, conclui-se que, com o clima actual, existe já uma situação generalizada de vulnerabilidade dos residentes em termos do seu conforto térmico. O índice de vulnerabilidade atual das 679 freguesias avaliadas varia entre 6 e 16, sendo que 594 freguesias têm uma vulnerabilidade atual igual ou superior a 10. Em cenários climáticos futuros este valor decresce para 585 freguesias. Durante uma onda de calor estimam-se que cerca de 166 310 pessoas nestes municípios estão em situação muito vulnerável, ou seja, são pessoas com mais de 65 anos residentes em freguesias com vulnerabilidade igual ou superior a 10. Em cenários de AC este valor poderá passar para 413 666  pessoas.

É expectável que estes índices venham facilitar a apreciação e tomada de decisão em matéria de estratégias de adaptação climática, nomeadamente na escolha municipal das medidas de adaptação do parque edificado e na monitorização da sua implementação.

Nota sobre os autores:

CENSE , FCT – Universidade Nova de Lisboa

Júlia Seixas é professora na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde coordena o grupo Energia & Clima, dedicado à investigação de futuros de baixo carbono com recurso a ferramentas de modelação integrada, focando novas tecnologias energéticas sustentáveis, novos modelos de política e economia do carbono, e avaliação da vulnerabilidade e adaptação dos sistemas energéticos a cenários futuros de alterações climáticas.

Sofia Simões é investigadora sénior no Centro de investigação – CENSE – FCT – Universidade Nova de Lisboa. O seu trabalho de investigação tem sido desenvolvido na área da modelação energia-economia-ambiente.

Vera Gregório é investigadora no Centro de investigação – CENSE – FCT – Universidade Nova de Lisboa. O seu recente trabalho de investigação tem sido desenvolvido na área das Alterações Climáticas e Politicas, com enfoque nos sistemas energéticos urbanos e no planeamento urbano.

A Universidade Nova de Lisboa – FCT, através do CENSE –  Center for Environmental and Sustainability Research, é um dos parceiros do consórcio do projeto ClimAdaPT.Local.

O projeto está integrado no Programa AdaPT, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente, IP (APA, IP), enquanto gestora do Fundo Português de Carbono (FPC), no valor total de 1,5 milhões de euros, cofinanciado a 85% pelo EEA Grants e a 15% pelo FPC. O projeto beneficia de um apoio de 1,270 milhões de euros da Islândia, Liechtenstein e Noruega através do programa EEAGrants, e de 224 mil euros através do FPC. O objetivo do projeto ClimAdaPT.Local é desenvolver estratégias municipais de adaptação às alterações climáticas.

A publicação deste artigo faz parte de uma colaboração entre a revista Smart Cities e os parceiros do projecto ClimAdaPT.Local.

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